domingo, 17 de janeiro de 2010

p.


Disseste para eu nada pedir, para não nomear, não ter nenhuma palavra, nem exclamação, sorrisos e para não estar morta também. Para te responder com as mãos, silenciosas, os dedos a baterem-te como a chuva, tão de leve. Fechas os olhos, aninhas-te nos meus braços como se não me nunca me visses, como se eu não existisse fora deste abraço por dentro. O peso tímido da tua cabeça a furar me a pele, a quebrar-me o peito. Mordes a memória, mexes os lábios. Não digo nada, o queixume é já desejo. Tem de ser plano e eterno este tempo, como se a morte pudesse rouba-lo se pudesse. Ocultas tudo para que seja como antes do sono, um mergulho lento, desmembrado, com a aprovação de todos. Os lábios são doces, não procuram, conhecem a felicidade, provam com a língua, provam mais, redondos, enrolados, enormes como o quarto, com a cama que se afunda e nos leva, líquidos, desfeitos uns no outro, numa celebração comum, silenciosa, não nomeada. Um abraço sem gestos, só um equilíbrio, frágil. Escorregamos sem esforço, não sei onde caímos, é a tua memória que nos guia, é o meu silêncio, todo o consentimento e o dom do teu acolhimento para que tudo aconteça longe daqui, sem eu nunca saber onde me levas e vou.